segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Apenas um conto
Uma menina no fim de um corredor gélido e vazio de um hospital fita o céu negro, através de uma pequena janela, com olhos piedosos clamando em silencioso ardor por uma ajuda divina. Do céu desce tão rápido, que mal pudera ousar piscar os olhos, uma estrela cadente. O seu feixe luminoso se esvai rapidamente, mas não sem antes penetrar em seu pequenino ser a esperança que seu pedido fosse atendido.
É bem verdade, reza a crença popular que ao vê-la deve-se fazer um pedido e este prontamente será atendido. Embora há muito já não creditasse o destino nas forças divinais, nesse momento era preciso ao menos acreditar que fora um sinal do universo conspirando a seu favor.
Triste verdade! Tal qual a vertiginosa passagem, ele se fora.
Ela não permitiria que ele fosse. A bem da verdade, ela não aceitaria. Naquele instante ela não tinha sequer percebido, mas tinha ido embora com ele.
A morte do pai fora a morte em vida dela - e só mais tarde ela perceberia.
Aranda l”
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Flor cacto
Mirava o horizonte e só via flores
Lindas flores tão cheias de si
Tanta beleza perfumada
A mim casco duro a esverdear o deserto
Não era sobre ser flor
Era sobre ser cacto
Silêncio ensurdecedor do ermo
Lá estava o pequeno cacto a suportar solitariamente os ventos que passa por si
Flores delicadas
Tão amadas, quase idolatradas
A mim casco duro a esverdear o deserto
Não era sobre ser flor
Era sobre ser cacto
Era sobre ser deserto de si
Não fina flor delicada
A morrer despetalada
No arrepio de um vento
Era sobre ser flor cacto
A mais forte do jardim
Mera flor a dar-se em último suspiro
Para mostrar beleza a qualquer um?
Não era sobre ser flor
Era sobre ser flor cacto
Admirada só por si
Solitária
Floresceu
Como quem liberta-se
O cacto tinha uma flor
Ou talvez a flor tivesse um cacto.
Aranda l”
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
Mas Moça...

Com ares de coragem
ela tenta suportar o peso da covardia
De todos os "quases"
Esse fora o quase mais profundo de todos
Dilacerando-a
Moça,
não chora
É sua especialidade
Afastar o outro
Como quem afasta a si mesmo
Morres de medo de ti
Você é um quase
E as pessoas se cansam de quase vidas
Quase ia e ficou
Quase se entrega e recuou
Quase coragem
Quase
Quase vida
Quase morte
Moça, não pensa em morrer
Você já não existe
Moça, olha pra ti
Definhando
Sob olhos incrédulos
Derramando lágrimas de uma quase existência
Ah! Moça
A moça chorou por alguém
Ou chorara por si?
Moça,
Foge
Esconde o sentimento
Finge que o odeia
Ele vai cansar de ti
Moça,
não seja covarde
Ela sussurra: - Dai-me a mão meu quase
Mas de longe observa
Agora em silêncio
Seu quase partir
Moça,
Há nisso muito coragem em ti.
Aranda l”
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Impermanência
Ao vento, para levar-me bailando em redemoinhos sem destino?
Ao mar, a beira de um precipício, para engolir-me em lenta e silenciosa imensidão?
As estrelas mortas que fingidamente brilham?
Ao outro, puro reflexo da ilusão do meu eu?
A mim?
Um eu que não existe?
Se não existo a quem importaria me dizer?
Ao próprio eu que não existe?
Não existindo seria a melhor forma de dizer-me?
Vácuo existencial sem fala - muda.
Ou muda.
Mas para mudar- me não teria eu que ter existido?
Muda.
De silêncio em silêncio
Para que dizer-me?
Se não existo não posso mudar o que nunca existiu
E o que teria a dizer sobre uma inexistência?
Muda.
Mudez mesquinha
Calando não existo
Falar-me-ei
Sobre o pretexto de escutar-me
Perguntas com respostas prontas
O eu existe
Só para fingir decifrar-me
Muda.
O eu que não existe calou a mim que finge viver
O eu falou: - Mas quem finge não são as estrelas que já não existem?
Cale o eu.
Mudez forçada.
O eu existe quando quero me enganar e me enganando já não posso dizer-me
Pois o dizer não existe
Se há uma inexistência de mim
Não posso dizer o que não existe?
Ou criando um novo eu posso dizer-me?
Escute o outro.
Está a dizer-se
O encontro de "não- eus".
Pequenos "eus" inexistentes a existir só para si mesmos.
Aranda l”
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
Miragem

Ela abriu uma fresta da porta do eu para sair de si
Tentando suportar sozinha, mira o nada
Olhos para fora
E um olhar melancólico para dentro
Ofuscante multidão
Vozes estridentes
Falas que ela não quer escutar
Faces que não deseja ver
Angústia dilacerante
O outro precisa entrar
Mas não sem antes ela sair
Olhou para si
Mais uma insignificante dentre todos
Tão desimportante quanto qualquer um
Tão especial quanto qualquer outro
Comum
Mas dentre todos os comuns
Inimiga de si
Não ultrapassa a porta
Correntes presas em perfilhados pensamentos
a cansam antes da partida.
Aranda l”
domingo, 11 de dezembro de 2016
Invisível

Invisível tentando ser invencível
Nada mais repugnante
Vencida por si
(In)sensível
Invisível
Mendiga de si
Rodeando banquete alheio
Suscetível
Invisível
Olhos que não a enxerga
Próprios olhos cegos
Em um rosto sem forma
Irreconhecível
Invisível
No sumiço não é notada
Em presença desprezada
Inacessível
Invisível
De tanto se perder dos outros
Não sabe o que fazer de si
Incompreensível
Invisível
Solitariamente
Preferível
Aranda l”
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