segunda-feira, 24 de outubro de 2016
Dos fingimentos
Saistes de si ao encontro do outro
O outro que é apenas um outro
Mas decidistes que não seria apenas um outro
E passastes a ver com lentes de aumento
Aquelas tuas malditas lentes da idealização
Saistes de si carregando a menina sonhadora
Que desejava aquele outro que seria seu suspiro mais lento e profundo
Aquele que andaria de mãos dadas
Endireitando o compasso dos seus descompassos
Um passo em falso
Ou um passo para trás?
Havia se perdido de si
Encruzilhou-se
Brincando de escolher
Fingiu o escolhido
Eram dois em um
Um que brilhava seus olhos e os guiaria tal qual faróis em seu caminho
Outro q continuava apenas um outro dentre todos os outros
Um passeio sem volta
Separou-os
Voltou a si.
Aranda l”
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
© Edward Hopper, "Noite de Verão".
Intelectual
Seria um livro ambulante?
Sempre citando e citando os geniais.
Convicções dos outros.
Intuitiva
Seria uma flor exalando misticismo?
É afeita a sentir o que cita o intelectual.
Convicções dela.
Caminhos cruzados.
Ela, fita a lua cheia e declama poesia.
Ele, fita o longe ansiando saciar desejos.
Emaranhados de um destino frágil.
Um livro ambulante chamado desejo
e uma flor vibrando desabrochar laços
Conexões fracas.
Carência furtiva festejando sexo.
Carência emotiva deliciando-se de si mesma
Ele, procura o outro
Ela, a si mesmo
Silencia, apenas silencia.
E ouve ecoando vozes vindas dele.
O vazio dele ecoa, mas quem fala são os outros - gemidos e sussurros.
Ele não se basta.
Ela se basta tanto que se enche do vazio dele.
Caminhos descruzados.
Para ela, bastava o inexplicável.
Para ele, o explicável e inescusável desejo.
Talvez a velhice em último suspiro despertasse a força transcendental do afeto.
Mas livro não sente.
Apenas cita o que fala os ditos geniais.
Uma resposta para tudo.
Nenhuma resposta pra si.
Aranda l”
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
(In)compreensões
Passeava entre as pessoas
Observando um a um
Caminhava delicadamente
Em direção a nenhum
Outros e tantos
Mas só tinha olhos para si
Olhos para dentro
Compreendendo-se
Dispensava um a um
Talvez até dispensasse era mesmo a si
Sentada na antessala do eu
Abre delicadamente uma fresta de si
Espia de longe
Um escolhido, enfim
Luz fina irradiou
Outro cruzou
Um passeio fez-se nela
Mas era tarde demais
Só ela cabia em si
Ele não a compreendia
Ela tampouco a si.
Aranda l”
sábado, 17 de setembro de 2016
Solitaria(mente)

Silenciou-se
Um silêncio tão
sincero que transbordara plenitude.
Dias em comunhão
consigo.
Com ares de um arrebatador amor por si entre olhares bobos e sorrisinhos tímidos.
Como se uma
donzela apaixonada tivesse deixado em alto mar o marinheiro e agora olhando sua
chegada não se contivesse em si.
Ela romantizava a
si mesma. Um romantismo de dor e angustia existencial.
Perguntara a si: - Havia algo mais encantadoramente fascinante?
Lua cheia, poesia, o
total esvaziamento da mente a cada grafitada naquele papel em branco.
Naquela noite
apenas desenhou horas adentro. No clarão da madrugada o lápis quebrou ao meio.
A fina delicadeza
que repousava em sua mão deu lugar ao pesar que sobressaltou-se a uma indagação
odiosa.
Parou. Bebeu um
gole de vinho como que tomando um gole de si.
Silêncio.
Um outro silêncio.
Tomada pela
pergunta levou a mão à cabeça e apenas quis rir de si.
Um sorriso
debochado. Desses que beira o desprezo por si.
Ela fingiu. Ela
sabia que em algum momento fingira para si.
Excessivamente
completa de si.
Excesso? Era essa
pontada que a tinha afligido.
De tempos em tempos saia do seu casulo. Estava tentando se misturar entre a gente, mas o tempo sempre traz
o desejo de si.
Fingia ser natural conversar com toda aquela
gente.
Era tão mais fácil
quando tinha prazer em dissecá-los.
E agora que estava apenas com eles, o que fazer?
Se somente ela
cabia em si?
Um anseio:
Um dia cruzaria
com aquele que saberia romper a linha tênue do seu silêncio.
O sublime momento
entre deixar-lhe ali e resgatar-lhe.
Fazer o que com
eles?
Fazer o que com
toda essa famigerada gente que nem sequer deseja saber dela?
Sim, ninguém quer
saber dela, se o que ela quer só cabe em si.
Excesso de si para
não caber o outro?
Ou vazio do outro
para não preencher a si?Aranda l”
domingo, 4 de janeiro de 2015
Olhei para seus olhos e nada vi.
Tentei penetrar em sua entranhas e ver revelada sua alma - não consegui.
Tentei penetrar em sua entranhas e ver revelada sua alma - não consegui.
Mas nunca falhara o olho no olho. Surpreendentemente, com
ele, sim.
Quem era ele, enfim? Parecia fugir de si(mim).
Fui me abrindo e me perdi.
Desejei desvendá-lo, mas ele tem controle sobre si – seu esconderijo
não me revela o que passa dentro de si.
A conexão de almas bailava entre nós dois, mas por medo da escuridão dos seus olhos – fugi.
Do eco dos esconderijos não se ouve muito bem, não se
enxerga o outro e deixa-se com o passar do tempo de sentir.
Ah! Quem me dera uma noite regada a vinhos para saber o que
se passa alí – desnudaria sua alma, enfim!
By Aranda l”
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O despertar
O caminho desfeito fez da sua mão uma encruzilhada
Milhares de linhas entrecortadas por seu ego
O caminho que se fizera reto desviou-se para um labirinto
E a cada certeza estufada no peito a saída se distanciava
Primeiro olhou para o céu contemplando
Para em seguida esbravejar contras as estrelas
que não se uniam para lhe mostrar a saída
Depois em piedade clamou ajuda
e chorou em soluço profundo a falta de uma mão amiga
Entendeu que estava só e lamentou, não seu fim,
mas sua dor -
que não era a nostalgia que cheirava a flores secas,
nem tampouco a melancolia que a fazia fechar os olhos
e bailar ao som de sussurros pueris
- era a dor de olhar para dentro!
By Aranda l”
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Rio vermelho
Cor pálida - ruborizou os becos
Vermelhando sem destino
E o riso de agora
Silenciou o pranto de outrora
Silenciou o pranto de outrora
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