quarta-feira, 5 de outubro de 2016


                                                                                           
                                                 © Edward Hopper, "Noite de Verão".

Intelectual
Seria um livro ambulante?
Sempre citando e citando os geniais.
Convicções dos outros.

Intuitiva
Seria uma flor exalando misticismo?
É afeita a sentir o que cita o intelectual.
Convicções dela.

Caminhos cruzados.

Ela, fita a lua cheia e declama poesia.
Ele, fita o longe ansiando saciar desejos.

Emaranhados de um destino frágil.
Um livro ambulante chamado desejo
e uma flor vibrando desabrochar laços
Conexões fracas.

Carência furtiva festejando sexo.
Carência emotiva deliciando-se de si mesma
Ele, procura o outro
Ela, a si mesmo

Silencia, apenas silencia.
E ouve ecoando vozes vindas dele.
O vazio dele ecoa, mas quem fala são os outros - gemidos e sussurros.
Ele não se basta.
Ela se basta tanto que se enche do vazio dele.

Caminhos descruzados.

Para ela, bastava o inexplicável.
Para ele, o explicável e inescusável desejo.

Talvez a velhice em último suspiro despertasse a força transcendental do afeto.
Mas livro não sente.
Apenas cita o que fala os ditos geniais.

Uma resposta para tudo.
Nenhuma resposta pra si.


                               

                                                                                     
                                                                                              Aranda l”

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

(In)compreensões



Passeava entre as pessoas
Observando um a um
Caminhava delicadamente
Em direção a nenhum

Outros e tantos
Mas só tinha olhos para si
Olhos para dentro
Compreendendo-se

Dispensava um a um
Talvez até dispensasse era mesmo a si

Sentada na antessala do eu
Abre delicadamente uma fresta de si
Espia de longe
Um escolhido, enfim

Luz fina irradiou
Outro cruzou
Um passeio fez-se nela

Mas era tarde demais
Só ela cabia em si
Ele não a compreendia
Ela tampouco a si.
                                                 

                                                                                                      Aranda l”

sábado, 17 de setembro de 2016

Solitaria(mente)


Resultado de imagem para trumbrl silencio

Silenciou-se
Um silêncio tão sincero que transbordara plenitude.
Dias em comunhão consigo. 
Com ares de um arrebatador amor por si entre olhares bobos e sorrisinhos tímidos.
Como se uma donzela apaixonada tivesse deixado em alto mar o marinheiro e agora olhando sua chegada não se contivesse em si.
Ela romantizava a si mesma. Um romantismo de dor e angustia existencial. 
Perguntara a si: - Havia algo mais encantadoramente fascinante?

Lua cheia, poesia, o total esvaziamento da mente a cada grafitada naquele papel em branco.
Naquela noite apenas desenhou horas adentro. No clarão da madrugada o lápis quebrou ao meio.
A fina delicadeza que repousava em sua mão deu lugar ao pesar que sobressaltou-se a uma indagação odiosa.

Parou. Bebeu um gole de vinho como que tomando um gole de si.
Silêncio.
Um outro silêncio.
Tomada pela pergunta levou a mão à cabeça e apenas quis rir de si.
Um sorriso debochado. Desses que beira o desprezo por si.

Ela fingiu. Ela sabia que em algum momento fingira para si.
Excessivamente completa de si.
Excesso? Era essa pontada que a tinha afligido.
De tempos em tempos saia do seu casulo. Estava tentando se misturar entre a gente, mas o tempo sempre traz o desejo de si.
Fingia ser natural conversar com toda aquela gente. 
Era tão mais fácil quando tinha prazer em dissecá-los.
E agora que estava apenas com eles, o que fazer? 
Se somente ela cabia em si?

Um anseio:
Um dia cruzaria com aquele que saberia romper a linha tênue do seu silêncio.
O sublime momento entre deixar-lhe ali e resgatar-lhe.

Fazer o que com eles?
Fazer o que com toda essa famigerada gente que nem sequer deseja saber dela? 
Sim, ninguém quer saber dela, se o que ela quer só cabe em si.

Excesso de si para não caber o outro?
Ou vazio do outro para não preencher a si?


                                                                                                                               Aranda l”





domingo, 4 de janeiro de 2015






Olhei para seus olhos e nada vi. 
Tentei penetrar em sua entranhas e ver revelada sua alma - não consegui.
Mas nunca falhara o olho no olho. Surpreendentemente, com ele, sim.
Quem era ele, enfim? Parecia fugir de si(mim).
Fui me abrindo e me perdi.
Desejei desvendá-lo, mas ele tem controle sobre si – seu esconderijo não me revela o que passa dentro de si.
A conexão de almas bailava entre nós dois, mas por medo da escuridão dos seus olhos – fugi.
Do eco dos esconderijos não se ouve muito bem, não se enxerga o outro e deixa-se com o passar do tempo de sentir.

Ah! Quem me dera uma noite regada a vinhos para saber o que se passa alí – desnudaria sua alma, enfim!

                                        

              
                                                                                                    By Aranda l”

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O despertar

  

O caminho desfeito fez da sua mão uma encruzilhada
Milhares de linhas entrecortadas por seu ego
O caminho que se fizera reto desviou-se para um labirinto
E a cada certeza estufada no peito a saída se distanciava

Primeiro olhou para o céu contemplando
Para em  seguida esbravejar contras as estrelas 
que não se uniam para lhe mostrar a saída
Depois em piedade clamou ajuda 
e chorou em soluço profundo a falta de uma mão amiga

Entendeu que estava só e lamentou, não seu fim,
mas sua dor - 
que não era a nostalgia que cheirava a flores secas,
nem tampouco a melancolia que a fazia fechar os olhos 
bailar ao som de sussurros pueris
- era a dor de olhar para dentro!







                                                                             By Aranda l”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Rio vermelho


Cor  pálida - ruborizou os becos
Vermelhando sem destino
E o riso de agora
Silenciou o pranto de outrora 


Cor viva - corra
ou vá lentamente se esvaindo -
percorrendo seu descaminho -
seque-me para eu encontrar a liberdade.


                                                                            Gravura: Orlando Pedroso



                                                                                                            By Aranda l”




sábado, 3 de agosto de 2013

Velha demais ou Jovem de menos?





Velha demais ou jovem de menos?
Dentro de mim mora uma senhora
Senhorinha de idade avançada
Que franze a testa cheia de rugas ao despertar da jovenzinha.

Jovem  de menos
Ansiando se desnudar nas ruas
e de peito aberto viver sem pensar no amanhã.

Velha demais
Cutuca as canelas da mocinha com a bengala
e pede bons modos.
Calma, diz a velha com ares de maturidade.

Velha demais ou jovem de menos?
Não entende que tudo que a moça queria era a agitação lá de fora,
o erro gritando em seus ouvidos,
a juventude?!!

Menina demais pra se exigir sabedoria quando ainda tinha muito joelhos para rasgar
Caminhando das experiências dos outros,
para poupar-se dos erros?
E havia maior erro que poupar a mocidade?

Maldita senhora
Sempre ponderado cada passo
Passos em falso que a jovenzinha desejava toda noite antes de dormir.


   
                                                                         By Aranda l”