quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Mas Moça...






Com ares de coragem
ela tenta suportar o peso da covardia

De todos os "quases"
Esse fora o quase mais profundo de todos
Dilacerando-a

Moça,
não chora

É sua especialidade
Afastar o outro
Como quem afasta a si mesmo
Morres de medo de ti

Você é um quase
E as pessoas se cansam de quase vidas

Quase ia e ficou
Quase se entrega e recuou
Quase coragem
Quase

Quase vida
Quase morte

Moça, não pensa em morrer
Você já não existe

Moça, olha pra ti
Definhando
Sob olhos incrédulos
Derramando lágrimas de uma quase existência

Ah! Moça
A moça chorou por alguém
Ou chorara por si?

Moça,
Foge
Esconde o sentimento
Finge que o odeia

Ele vai cansar de ti

Moça,
não seja covarde

Ela sussurra: - Dai-me a mão meu quase
Mas de longe observa
Agora em silêncio
Seu quase partir

Moça,
Há nisso muito coragem em ti.


                                                                              Aranda l”



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Impermanência







A quem me dizer?
Ao vento,  para levar-me bailando  em redemoinhos sem destino?
Ao mar, a beira de um precipício, para engolir-me em lenta e silenciosa  imensidão?
As estrelas mortas que fingidamente brilham?
Ao outro, puro reflexo da ilusão do meu eu?
A mim?
Um eu que não existe?

Se não existo a quem importaria me dizer?
Ao próprio eu que não existe?
Não existindo seria a melhor forma de dizer-me?
Vácuo existencial sem fala - muda.
Ou muda.

Mas para mudar- me não teria eu que ter existido?
Muda.

De silêncio em silêncio 
Para que dizer-me?
Se não existo não posso mudar o que nunca existiu 
E o que teria a dizer sobre uma inexistência?
Muda.

Mudez mesquinha
Calando não existo 
Falar-me-ei
Sobre o pretexto de escutar-me
Perguntas com respostas prontas 
O eu existe
Só para fingir decifrar-me
Muda.

O eu que não existe calou a mim que finge viver
O eu falou: - Mas quem finge não são as estrelas que já não existem?
Cale o eu. 
Mudez forçada.

O eu existe quando quero me enganar e me enganando já não posso dizer-me
Pois o dizer não existe 
Se há uma inexistência de mim

Não posso dizer o que não existe?
Ou criando um novo eu posso dizer-me?

Escute o outro.
Está a dizer-se
O encontro de "não- eus".
Pequenos "eus" inexistentes a existir só para si mesmos.


                                                                                                     Aranda l”




segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Miragem



Ela abriu uma fresta da porta do eu para sair de si
Tentando suportar sozinha, mira o nada
Olhos para fora
E um olhar melancólico para dentro

Ofuscante multidão
Vozes estridentes
Falas que ela não quer escutar
Faces que não deseja ver

Angústia dilacerante
O outro precisa entrar
Mas não sem antes ela sair

Olhou para si
Mais uma insignificante dentre todos
Tão desimportante quanto qualquer um
Tão especial quanto qualquer outro

Comum
Mas dentre todos os comuns
Pulsa o desejo ardente de sumir

Inimiga de si
Não ultrapassa a porta
Correntes presas em perfilhados pensamentos
a cansam antes da partida.

                                                                                                                Aranda l”

domingo, 11 de dezembro de 2016

Há em mim tanta insatisfação que posso me embriagar em sua imensidão
Doce desilusão - não se vê com olhos fraternos

Amargo fim se comparar sem fim
Sempre tão distante beirando a irrealidade

Sempre tão ausente
Sempre tão sozinha





                                                                   Aranda l”



Invisível



Invisível tentando ser invencível
Nada mais repugnante
Vencida por si
(In)sensível

Invisível
Mendiga de si
Rodeando banquete alheio
Suscetível

Invisível
Olhos que não a enxerga
Próprios olhos cegos
Em um rosto sem forma
Irreconhecível

Invisível
No sumiço não é notada
Em presença desprezada
Inacessível

Invisível
De tanto se perder dos outros
Não sabe o que fazer de si
Incompreensível

Invisível
Solitariamente
Preferível


                                                                Aranda l”


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A beleza da (in)existência de um alguém






Ele se foi
Mas já havia ficado dentro dela
Ele a havia tocado profundamente
Deixou a paixão

Ela havia desejado tal sentimento por ele
E embora ele tenha ido embora
Ela se afeiçoou a paixão
Talvez a inocência de senti-la pela primeira vez tão intensamente
a absorva da dor

Seus dias passaram a ser a certeza da espera sem volta
O silencioso sopro da paixão
Uivando em noites tristes

Ah!Doce melancolia
De tempos que nunca virão

No silêncio da sua solidão
Hoje convive com uma paixão.


                                                                                     Aranda l”



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

À margem de si



Deitada em sua cama – quem não a conhecesse, ao vê-la ali, imaginaria que vegetava. Não deixara de ser verdade, ela estava presa em si mesma.

Naquela fria madrugada acordou-se de sobressalto e com os dedos retorcidos por dentro da gola da camisa, levantou a si mesma a dois palmos do chão e com um furor que beirava a odiosa compaixão imprensou-se na parede, fitando os olhos naquilo que havia se tornado.

Não era um devaneio, nem sequer loucura. Chegara ao limite de si mesma. Fina linha tênue entre a vida e a morte. Tempos e tempos podiam se passar a mirar o nada. Mas era um nada tão cheio de tudo, e ela estava, literalmente, tão cheia de tudo que transbordara de si em si mesma. Não sentia amor, nem tampouco tristeza. Apenas a plenitude do silencioso vazio.

Ela já não se reconhecia para saber quem é, já não sabia quem fora e nem ousara imaginar quem seria – e se seria algo algum dia. E por que teria que ser? Por que haveria de ser?
Ela tentava entender, mas quanto mais tentava se via caminhando para o nada – indo para longe da vida. Olhava para trás se desaproximando do fino véu nevoado que a separava de si mesma.

Ouvia vozes doces em seu ouvido – os outros. Ah! Os outros não a bastava. Não porque ela não quisesse, mas porque isso simplesmente não bastaria. Ela até os queria, mas o não querer de si mesma era mais forte. Entendera que não tinha nada a ver com qualquer um que fosse, era ela com ela mesma. Só existia ela com seu próprio eu carrasco.

Há um momento em que nem a si mesmo se consegue enganar. O seu eu parece que vem lhe pedir satisfações. Parece inconformado com você, por vezes chateado – agora sempre sério e severo lhe espreita – ele quer satisfações. O que fizera da sua vida? Deixara você livre por muito tempo e você sente que fizera tudo errado.

Afrouxa as mãos do pescoço, cai no chão, enfia a cabeça entre as pernas sobre-erguidas e permanece lá no canto da parede.
Doía o nada, doía ser um nada. Por que e para que seguir em frente? Não havia vontade. Não existia esperança. Só havia angústia. Uma angústia fina e excruciante que ela se apegara tal qual uma simbiose para lembrá-la que ainda estava viva – um fingido viver: quase viva ou quase morta.

Mira o relógio antigo, empoeirado e sem mexer nenhum dos seus ponteiros. Simpatiza por ele – em algum momento havia parado no tempo, tal qual ele. À mercê de tudo e todos. Vagando no limbo existencial. Sabia-se á margem de si.

Por alguns instantes enxergava um véu cristalino entre seu mundo à parte e o real, aproximava suas mãos delicadas tocando-o levemente como se flutuasse por fluídas águas, sentia vontade de ter sua vida de volta. Mas imediatamente desencostava as mãos e perguntava-se: Que vida? Que maldita vida? Já não sabia se tinha mais vida, mas não desejava aquela sobrevida.

Espreitava de olho de canto toda aquela gente que supostamente vive. Entediada fazia cara de repulsa. Esboçava náusea. Não queria ser igual a toda essa corja da sociedade, ou não assumiria ser.

Começara a ter raiva dos outros, além de si mesma. Era reconfortante. O limite a cutucara – naquele momento a raiva era o único sinal de vida dentro de si.

                                                                                 Aranda l”