domingo, 4 de janeiro de 2015






Olhei para seus olhos e nada vi. 
Tentei penetrar em sua entranhas e ver revelada sua alma - não consegui.
Mas nunca falhara o olho no olho. Surpreendentemente, com ele, sim.
Quem era ele, enfim? Parecia fugir de si(mim).
Fui me abrindo e me perdi.
Desejei desvendá-lo, mas ele tem controle sobre si – seu esconderijo não me revela o que passa dentro de si.
A conexão de almas bailava entre nós dois, mas por medo da escuridão dos seus olhos – fugi.
Do eco dos esconderijos não se ouve muito bem, não se enxerga o outro e deixa-se com o passar do tempo de sentir.

Ah! Quem me dera uma noite regada a vinhos para saber o que se passa alí – desnudaria sua alma, enfim!

                                        

              
                                                                                                    By Aranda l”

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O despertar

  

O caminho desfeito fez da sua mão uma encruzilhada
Milhares de linhas entrecortadas por seu ego
O caminho que se fizera reto desviou-se para um labirinto
E a cada certeza estufada no peito a saída se distanciava

Primeiro olhou para o céu contemplando
Para em  seguida esbravejar contras as estrelas 
que não se uniam para lhe mostrar a saída
Depois em piedade clamou ajuda 
e chorou em soluço profundo a falta de uma mão amiga

Entendeu que estava só e lamentou, não seu fim,
mas sua dor - 
que não era a nostalgia que cheirava a flores secas,
nem tampouco a melancolia que a fazia fechar os olhos 
bailar ao som de sussurros pueris
- era a dor de olhar para dentro!







                                                                             By Aranda l”

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Rio vermelho


Cor  pálida - ruborizou os becos
Vermelhando sem destino
E o riso de agora
Silenciou o pranto de outrora 


Cor viva - corra
ou vá lentamente se esvaindo -
percorrendo seu descaminho -
seque-me para eu encontrar a liberdade.


                                                                            Gravura: Orlando Pedroso



                                                                                                            By Aranda l”




sábado, 3 de agosto de 2013

Velha demais ou Jovem de menos?





Velha demais ou jovem de menos?
Dentro de mim mora uma senhora
Senhorinha de idade avançada
Que franze a testa cheia de rugas ao despertar da jovenzinha.

Jovem  de menos
Ansiando se desnudar nas ruas
e de peito aberto viver sem pensar no amanhã.

Velha demais
Cutuca as canelas da mocinha com a bengala
e pede bons modos.
Calma, diz a velha com ares de maturidade.

Velha demais ou jovem de menos?
Não entende que tudo que a moça queria era a agitação lá de fora,
o erro gritando em seus ouvidos,
a juventude?!!

Menina demais pra se exigir sabedoria quando ainda tinha muito joelhos para rasgar
Caminhando das experiências dos outros,
para poupar-se dos erros?
E havia maior erro que poupar a mocidade?

Maldita senhora
Sempre ponderado cada passo
Passos em falso que a jovenzinha desejava toda noite antes de dormir.


   
                                                                         By Aranda l”

domingo, 2 de dezembro de 2012

VIDA ÚTIL


  Tenho vomitado palavras 
Sem qualquer plateia
Sem nenhum aplauso
O que não deixa de me agradar, pois me salva das vaias
Não quero críticas, as minhas me bastam
Nem tampouco elogios
É uma questão entre eu e eu mesmo
Escrever é sentir uma mão rasgando seu ser e de punho a punho ir rabiscando seu sentir
Despejo ódio e encontro amor
Grito raiva e sussurro leveza
Invento vidas para sentir o viver
Revelo mágoas e encerro capítulos
Afrouxo os nós das exigências, desengatilho a impiedosa autocrítica, molho a caneta no tinteiro para me desnudar
Afasto o clichê
Derramo letras de tristeza sobre um adubo de dor e colho autoconhecimento
Tremo de desesperança com febril pessimismo e me curo ao desabafar
Mãos conscientes redigem o que dita alguém que mora dentro de mim e conhece mais de mim do que eu sobre eu mesma
Murmúrios não verbalizados – Respiro o pensar, expiro a escrita
Nocauteio-me com verdades viscerais
Gosto amargo de sangue na boca
Pulso
Veia latejante
Coração acelerado
Vida
Escrever é sair do rastejar da sobrevida
O deslizar da caneta deixa o escritor em pé
Começo morta e termino viva.

                                        By Aranda l”

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Teatralizando

Se eu não fosse essa perdida na vida
Daria uma excepcional atriz
Antagonista de minha própria vida
Se me visse atuando até acreditaria em mim

Ela diz que estou bem
Mal sabe o que se passa em mim
Se soubesse meus pensamentos teria medo de mim
Um pé do outro lado, outro aqui

Não há um dia que eu não pense em partir
Mas sou boa atriz
Visto o personagem
E mais um dia passa por mim

Quem me dera eu fosse realmente valente
Pra enfrentar a mim
Mas se eu o fosse
Já não estaria mais aqui

Subo no tablado e olho pra platéia
Lotada das muitas de mim
No fundo só uma não aplaude
É a verdadeira eu - longe de mim

Ela não cai no meu teatrinho barato
E forçando os olhos entreabertos encara-me
Apavora-me saber que ela sabe o que se passa dentro de mim
E que eu estou longe de me despir.




                                        By Aranda l”
                                                                                                        

sábado, 24 de novembro de 2012

Nada muda

Menina silenciosa
Expirou ar frio como névoa cortante a sair dos pulmões
E a cada ofegante respiração parecia ir expelindo a si.

Estava pensando em ir embora
Partir sem se despedir
Sucumbir ao infinito
Feito pó brilhante no universo

Vento frio assoviando pesar
Desesperança de uma vida miserável
Nada acontece, senhor destino!
Onde estás que me abandonastes sozinha aqui?

Há tanta vida lá fora
E nada acontece da porta pra dentro
Grito abafado
- Nada muda!

Senhor destino?
Uma cruel espetada fatal sobre meu peito
Senhora morte?
Um golpe de sorte sobre meus ombros

Onde estão desgraçados?
Que nada muda!

                  
                                                                                               
                                                                       
                                                                                      By Aranda l”